Destino em Chamas – Parte Final

De dentro do portal (gradualmente se fechando), uma brisa traz uma carícia gélida e incômoda. Cedrick, Aluriel e Shambala inconscientemente se movem para mais perto de Balsaraph (envolto no seu costumeiro manto de chamas) procurando algum tipo de conforto.

“Cedrick, tome sua arma!” Caliburn estava com o bruxo depois do encontro com a maga, quando esta controlou a mente do guerreiro.

“Obrigado.”

“Ela é uma espada formidável, seguiu seu comando mesmo quando você não a estava mais empunhando.”

“Bal, eu sinto muito, não foi minha intenção.”

“Eu sei, amigo.”

“Claro que se vocês tivessem dado ouvidos ao que eu disse sobre a maga, poderíamos ter evitado alguns problemas.” Corta a elfa tão afiada quanto uma de suas flechas.

O humano e o tiefling desviam o olhar.

“Mas temos coisas mais importantes para pensar no momento.” Ela diz num sorriso que brilha como as estrelas de Sehanine devem brilhar e, por um momento, os amigos esquecem a tarefa implacável que os espera através do portal.

“Vamos.”

Todos atravessam a passagem mágica.

XXX

Ventos fortes e enregelantes lhes recebem e lhes açoitam do outro lado do portal. Eles estão num grande salão abobadado com cada pequeno tijolo que o constitui adornado por muitos glifos e runas (tantos quanto nem mesmo Aluriel lembra ter visto na Biblioteca Real de Silver Glades), escadarias e balcões estão posicionados como num anfiteatro (ou uma sala de julgamento) e, no centro inferior deste, há  um obelisco macabro. Balsaraph tem certeza que ela é grande o suficiente para emparedar alguém bem esguio. Não é necessário um clérigo ou um paladino para que o grupo tenha uma certeza: este lugar é sagrado.

Nenhum sinal do demônio alado.

“Ele está aqui. Caliburn está pulsando e, de alguma forma me diz para estarmos preparados.” Cedrick sussurra.

Sons de palmas.

“Eu não sei como vocês passaram por meus demônios e por Lorelei, mas eu não vou subestimá-los.” Ele está glorioso, estava provavelmente voando bem acima deles sem ser visto (um feitiço de invisibilidade talvez). Sua voz barítona ecoa por todo o salão sem demonstrar nem emoção nem misericórdia.

O som do farfalhar das asas dele é hipnotizante quando ele se aproxima vagarosamente do grupo. Todos (até mesmo Shambala) se sentem relaxados, suas mentes vazias, no entanto por um segundo o bruxo nota o reflexo das garras do ser abissal e se liberta do feitiço.

“AFASTE-SE!” grita o tiefling e assopra.

Um gigantesco cone de fogo azul jorra de sua boca como a baforada de um dragão adulto. O demônio consegue se esquivar do ataque e se afasta incólume com apenas algumas poucas penas queimadas. Pelo menos ele se afasta.

O guerreiro, a elfa e o tigre voltam ao normal. Furiosos.

Bal toma a iniciativa.

“Diga-me seu nome! DIGA-ME SEU NOME!” Os olhos do tiefling estão em chamas e ele olha diretamente para o demônio.

O ser alado parece confuso e sobrepujado. Ele abre a boca lentamente tentando resistir ao comando do bruxo.

“Cro… Crobenoth… NÃO!” Ele resiste. “Boa tentativa de me fazer revelar meu nome verdadeiro, mas você terá que fazer melhor que isso, bruxo.” Ele mergulha na direção de Bal.

Uma espada em chamas o intercepta quando ele se aproxima do solo. O demônio desvia sua cabeça antes de ela ser decapitada. O golpe foi inesperado e, ainda no ar, ele é mais uma vez surpreendido pela montanha violenta de músculos que é Shambala.

Porém, desta vez, é o tigre branco que é pego de surpresa pois, no momento em que suas garras felinas penetram a carne do demônio, o grande animal é parcialmente congelado e se debate aos calafrios ao lado de sua pretensa presa.

O ser alado levanta suas garras afiadas e começa a dilacerar o flanco do tigre momentaneamente indefeso.

“NÃO!!” Aluriel atira duas flechas miradas no agressor abissal. Nenhuma o acerta, não por imperícia da caçadora mas tentando afastar o assassino de seu amigo.

Ele se distancia voando, rindo.

O tiefling começa a conjurar a maior bola de fogo que todos lembram ter visto e a arremessa. O demônio responde à altura como uma esfera congelada. As evocações elementais se encontram a meio caminho e explodem num misto azulado de calor e frio.

Cedrick se concentra e as runas na lâmina de Caliburn se iluminam. No segundo seguinte, o peitoral, as braçadeiras e as grevas da armadura do guerreiro se iluminam com as mesmas runas. Ele olha para o seu inimigo alado e dá um salto fantástico no ar em sua direção. Caliburn faz um talho nas costas do demônio que urra de dor. O guerreiro parece imune à armadura gélida que congelou Shambala e retorna ao solo são e salvo.

Aluriel já ajoelhada ao lado do grande tigre, põe seu arco ao seu lado, seus olhos se fecham e suas mãos tocam o pêlo congelado do amigo. É trágico, ela pensa, como o sangue quente de Sham está ajudando a descongelá-lo. Ela murmura um encantamento de cura que aprendeu com Yulein, seu irmão mais velho. Ele funciona, o tigre ainda está gravemente ferido, porém teve seu ferimento estabilizado.

Bal dá um olhar significativo para Cedrick, ele responde com um aceno rápido de cabeça. O demônio agora tem um novo alvo e o bruxo vai tentar descobrir mais sobre seu inimigo. O tiefling se dirige para o centro do anfiteatro, para o obelisco.

As mãos do inimigo alado se abrem e centenas de estilhaços de gelo voam tentando matar o guerreiro. O humano habilmente desvia a maioria deles com Caliburn, o restante encontra apenas a armadura mágica quase impenetrável do herói.

Cedrick mais uma vez salta para o ataque, no entanto desta vez o ser alado estava preparado e se esquiva. Imediatamente após ataque do humano, ele mergulha velozmente e tenta desarmar o guerreiro. Falha.

A caçadora (já com lágrimas nos olhos) verifica mais uma vez se seu amigo está estável, pega seu arco e saca duas flechas de sua aljava. Ela põe as duas juntas no seu arco e atira.

“Sem mais vantagens para você, desgraçado!” Ela grita. Os dois projéteis se transformam em relâmpagos como o esperado. Cada um atinge uma das asas do ser alado, as incapacitando.

Ele cai veloz mente e se choca no solo inclinado do anfiteatro.

Balsaraph se concentra em seu alvo. Há realmente espaço para alguém ser aprisionado no obelisco. Observando mais de perto, é possível identificar sigilos em baixo relevo de uma espécie que o bruxo lembra já tinha visto antes (Ele só não consegue precisar onde.), no entanto o que mais chama a atenção do tiefling são as rachaduras na superfície da suposta prisão.

“Eu vou fazer um cinturão das suas entranhas, caçadora!” O demônio grita em agonia por ter suas asas destruídas, porém antes que possa se vingar da elfa é interceptado pelo guerreiro. Não podendo mais voar por sobre o humano, o inimigo é obrigado a parar e enfrentar a óbvia ameaça que é Caliburn empunhada por alguém tão experiente.

Enquanto isso, absorto em sua investigação, Balsaraph inadvertidamente toca o obelisco, evoca em encanto de revelação e tem uma visão.

Uma Tieflord alta e esguia, de pele pálida, lábios finíssimos e dedos assustadoramente alongados está parada impávida no meio de um campo de batalha. Metade de um coro inteiro de anjos é assassinada com um movimento das mãos de Jorhana Lar-Barik, mal tocam o solo e são transformados numa legião de demônios disformes. O conflito entre as duas facções se estende até a chegada de um magnânimo ser celestial empunhando uma espada estranhamente semelhante a Caliburn.

A visão muda e mostra o anfiteatro onde estão sentados diversos seres celestiais. No centro, a Tieflord está presa a grilhões do que parece ser ferro frio. Ela está sendo julgada juntamente com o demônio (outrora) alado com quem seus amigos estão lutando. Ela é condenada e aprisionada no obelisco pelo mesmo imponente anjo com a espada. Seu comparsa abissal não está mais na visão do bruxo quando ela termina.

Caliburn ele ouve sendo sussurrado em sua mente. Use a espada do guerreiro.

O tiefling não pensa duas vezes.

“Cedrick, ele quer Caliburn!”

O guerreiro confuso com as palavras do bruxo é finalmente desarmado. O demônio o segura pelo pescoço (tenta quebrá-lo, no entanto a armadura ainda o protege) e o arremessa em uma das paredes.

Aproximando-se rapidamente do obelisco, o inimigo surpreende Bal que também é projetado (em cima de Aluriel) antes que consiga lançar uma maldição e tem o braço esquerdo quebrado com o golpe.

“Mortais, vocês serão as primeiras vítimas de minha Mestra.”

É só quando Caliburn se aproxima da prisão de Jorhana que Balsaraph nota as semelhanças das runas da espada e no obelisco.

O demônio levanta sua garra empunhando a espada e desfere um golpe contra o obelisco.

XXX

No entanto a espada pára pouquíssimo antes de acertar seu alvo.

“Não!” Diz a voz calma de um Cedrick ferido e alquebrado; lutando para se manter de pé e com a mão direita (agora uma garra) espalmada na direção de Caliburn. “Ela é minha espada e irá me obedecer!”

O demônio segura a espada com suas duas garras e retesa todos os seus músculos com o esforço para movê-la. Ela permanece imóvel.

“Caliburn, queime!” O guerreiro ordena.

As runas da espada surgem em todo o corpo do demônio. É como se um animal fosse marcado a ferro quente por toda extensão do corpo ao mesmo tempo. O inimigo tenta e não consegue largar a arma sagrada. No momento seguinte ele é envolto em labaredas.

“Luri, junte seu poder ao meu!”

A elfa coloca uma flecha em seu arco mágico, o tiefling transfere parte de suas chamas azuis para esta mesma flecha. A caçadora atira.

Urrando de dor, o demônio inominado tem seu coração gélido trespassado por um certo relâmpago coberto por chamas azuis e morre se estilhaçando como uma frágil estátua de gelo.

Logo depois, a estrutura do salão de teto abobadado treme e blocos de pedra começam a cair.

Tudo é desespero. Cedrick se esforça para manter a consciência (ele ainda conseguiu erguer Caliburn do chão e abrigá-la em sua bainha), Balsaraph agoniza com seu braço quebrado e Shambala volta a sangrar. Apenas Aluriel não está ferida.

“Ainda há uma chance de sobrevivermos, Luri.” Ele tropegamente tenta consolar sua amiga de expressão já resignada. “Pode ser perigoso, mas acho que agora eu tenho poder para tal.”

Após uma breve concentração, o bruxo consegue abrir um portal. Um cheiro pútrido emana desse portal e tudo é escuro além dele.

“Vamos! Rápido! Não posso manter por muito tempo!“

Com dificuldade, Cedrick bravamente carrega seu amigo felino incapacitado em combate. Todos atravessam o portal.

XXX

“Ainda não entendi como você fez isso.” O humano tem bandagens escondendo os ferimentos em seu corpo.

“Lembra como eu conjurei aqueles imps quando confrontamos as aranhas?”

“Como eu poderia esquecer?” Um arrepio corre a espinha do guerreiro com a lembrança.

“Bem, meu amigo, eu tenho que criar uma pequena abertura interplanar para conjurá-los do Abismo ou dos Nove Infernos para o Plano Material.” O bruxo nunca tinha visto o guerreiro (pouco dado aos estudos acadêmicos) tão atento em um assunto que diz respeito à magia. “Eu ‘simplesmente’ fiz o processo inverso. Abri uma passagem do Plano Material para o Abismo, e depois do Abismo de volta ao Plano Material.”

“Quer dizer que poderíamos ter sido atacados por mais demônios?” Indaga a elfa.

“Eu disse que poderia ser perigoso, não disse?” O tiefling responde irônico.

Todos gargalham.

“Ainda bem que voltamos ao normal.” Diz Cedrick enquanto sente a áspera e quente língua de Shambala em suas mãos.

“Eu até que estava gostando de suas orelhas pontudas.” Brinca Aluriel.

O humano que já enfrentou dragões e demônios se envergonha com o comentário.

“Bal, você não vai nos contar como adquiriu seus poderes novos?” Inocentemente o guerreiro tenta mudar de assunto.

“Ele fez um pacto, Cedrick.” Luri responde séria.

Ninguém fala nada e a tensão satura o local.

“Obrigada por isso, Bal. Sei que para você ter conseguido tanto poder teve que sacrificar muito de si.”

“E pode ter certeza que nós estaremos sempre ao seu lado, amigo.” Completa o humano, com um sorriso amistoso e simples.

Balsaraph cabisbaixo dá um pequeno sorriso em resposta.

Repentinamente, calafrios percorrem a pele dos amigos. Shambala rosna de baixo da mesa no Olho da Górgona.

“Bom dia, queridos.” Lily vem recepcioná-los. “O que vão querer hoje?”

“Eu já sei, eu já sei, tenho que tirar Shambala daqui.” E elfa não está com paciência para brigar.

“Não tem problema. Ele pode ficar contanto que não saia de baixo da mesa para aterrorizar os outros clientes. E além do mais, estou de ótimo humor hoje.” Diz a estalajadeira muito sorridente.

Depois de anotar os pedidos do grupo (todos menos o tiefling que alega ‘ter perdido a fome’), Lily retorna ao balcão para trazer o que lhe foi solicitado.

“Até que ela não é tão má.” Admite a caçadora um tanto confusa.

“Não, não é.” O bruxo responde mais soturno que o de costume mas seus amigos estão cansados demais para perceber…

Fim?

  • kanaima29

    Olá, pessoas. Bem, primeiramente, desculpas por não ter postado ontem (meu irmão precisou muito do meu cpu).
    Esse foi o conto mais longo que eu lembro ter escrito hauahauahu, mas acho que ficou bacana.
    Outro aviso: na próxima semana não vou publicar pois terei visita importante aqui em casa. ^^
    Bjs e abraços.

  • Heloisa

    Aaaaiiii adorei!!!
    Gente! A Aluiel é demais! XD hahahahahha
    Quero continuação hein! Esse "FIM?" me deixou com esperanças! IUAHSUIAHUISHAUIS

    Parabéns amore, seus contos são MUITO fodas! ^^

    Beijosss!! :***

  • Zigga

    Seus contos são fodas, como sempre. Adoro quando você coloca um pouco mais de humor na história, as batalhas sisudonas-e-soturnas-com-diálogos-de-frase-de-efeito são divertidas pra cacete, mas cansam um pouco. Eu ia gostar de ver uma continuação com esses personagens, mas acho que não tão cedo. Você merece um descanso.

    E SEU FDP. Deixou o chove-não-molha do Cedrick (que tem um senhor queixo nessa ilustração, btw) e da Aluriel na mesma! GAAAAAH FEEL MAH FANGIRL FURY !!!

    That's all, folks.

  • @Zigga: ahh amiga, a Luri não é fácil não hauahauahau
    Mas um dia, quem sabe o Cedrick dá um beijinho nela? hein? hein? Bjs
    @Helo: Love u!!!

  • @Zigga: ahh amiga, a Luri não é fácil não hauahauahau
    Mas um dia, quem sabe o Cedrick dá um beijinho nela? hein? hein? Bjs
    @Helo: Love u!!!