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Lágrimas dos Anjos

Anjo de pedra–        Onde estou? Está tão frio aqui!

–        Não tema criança, tudo está bem agora.

–        O que aconteceu? Quem é você?

–        Tenha calma, todas as respostas virão. Acabou o tempo de agonias e ansiedades. Apenas

Descanse… Eu voltarei em breve.

Sophia permanecia imóvel e temerosa. Estava exausta e os seus olhos latejavam, pois a claridade era intensa, uma luz pura e infinitamente branca. Todo o seu corpo estava dormente, como se tivesse feito muitos esforços, mas ela não se recordava de nada, nem conseguia saber o que estava acontecendo.

Sua cabeça rodava e nenhum pensamento fazia sentido, eram apenas imagens desconexas, sem qualquer ligação entre si. Estava confusa como se estivesse sob o efeito de muitas taças de vinho.

Sophia se sentou no chão gramado, cairia se não o fizesse, as suas pernas não aguentavam mais, seu estômago estava revolto. Mas não conseguia vomitar. O cansaço era imenso e fez com que o seu corpo se inclinasse aos poucos até ela adormecer.

–        Trouxe a moça, Iel?

–        Sim, ela descansa no jardim.

–        Que assim fique! Logo ela despertará e lhe contaremos a verdade.

–        Sua vontade prevalece!

–        Agora vá e cuide de tudo.

“Logo o destino se cumprirá” – pensou o Grande Ser.

Sophia ainda adormecida sonhava com o seu cão, sonhava que brincava em um grande

Parque. O dia estava ótimo, ensolarado. Ela se divertia muito, podia sentir as lambidas quentes de Tobby na sua face, tudo era perfeito, tudo era tão magnífico e real. Mas, subitamente o Sol desapareceu e muitas nuvens escuras cobriram o céu, não mais azul. Tobby também desaparecera sem deixar qualquer vestígio e Sophia gritava:

–        Tobby! Tobby! Aonde você foi? Vamos embora!

Porém, não houve resposta, somente o silêncio, dominante e único. A menina corria sem rumo, tudo estava negro, a visibilidade era de poucos metros. Ela chorava e continuava a correr tomada por um pânico desumano, até que algo foi visto, havia alguma coisa no chão. Sophia se aproximou, vagarosamente, contendo o medo e apertando a boca para que não saísse nenhum grito de desespero.

–        O que é isso? Parece um…

–        Não! Tobby…

E Sophia acordou com muitas lágrimas nos olhos, gritando por seu amigo.

–         Que pesadelo horrível! Nunca havia sonhado com algo assim! Será que é esse lugar? Onde estou? Mamãe!

Gritos em vão. Ecos perdidos no ar frio.

Ela estava em um belo jardim, com muitas orquídeas e pequenos arbustos. O local era imenso, parecia se juntar com céu na distante linha do horizonte. Havia um som de água muito agradável, proveniente de uma cascata de pedra.

Sophia se levantou e começou a caminhar pelo lugar. As plantas eram muito verdes e não havia sequer uma folha seca caída no chão. Ela vestia um belo vestido azul, de um tecido muito fino e leve, adornado com pequenas flores de douradas e folhas prateadas.

O ar estava perfumado com um aroma conhecido e agradável, trazido por uma brisa fraca, mas constante.

–        Uvas! – gritou Sophia.

–        Que linda parreira! Quantas uvas! Parecem deliciosas!

E a menina arrancou um grande cacho e deliciou-se. Comeu, engoliu sem mastigar, mesmo sem ter fome.

–        Nossa! Como são doces! Nunca havia comido uvas tão doces assim!

–        São uvas diferentes, criança – disse o austero homem que a observava com um pequeno sorriso.

Sophia se assustou e quase engasgou. Tossiu um pouco antes de se recompor.

–        Você está aí! Eu fiquei com vontade de experimentar as uvas e…

–        Tudo bem! Pode comê-las – respondeu – Essa parreira foi plantada há muitas eras pelos nossos antepassados.

–        Mas é tão viçosa, parece muito jovem.

–        É que nesse jardim nada envelhece, nada morre.

–        Plantas que não morrem?

–        Tudo aqui é eterno.

–        Como pode ser?

–        Aqui não há motivos para a morte, os ciclos já foram cumpridos.

–        E o que eu estou fazendo aqui?

–        Esse era o seu destino. Agora venha, vamos passear pelo jardim.

–        Está bem! Mas, só mais uma pergunta…

–        Fale.

–        Você é um anjo?

–        Pode se dizer que sim.

–        E, você tem nome?

–         Eu me chamo Iel.

–        Iel! Gostei! Eu me chamo…

–        Sophia.

–        Como sabe o meu nome?

–        Nós sabemos tudo…

Já havia se passado muito tempo desde que eles começaram passear pelo jardim. Sophia sentou-se sobre uma pedra que ficava bem à frente de um carvalho monumental e ao seu lado uma fonte de cristal com águas límpidas e borbulhantes.

–        Nossa! Estamos andando há muito tempo e eu só estou levemente cansada! – admirou-se.

–        Com o tempo você não sentirá mais nada, não precisará dormir ou comer.

–        Lá vem você com mais uma das suas charadas!

–        É somente a verdade!

–        Bom, enquanto esse momento não chega, vou beber um gole d’água.

E a menina bebeu um pouco da água da fonte, saciando a sua sede.

–        Nada como beber um pouco de água fresca!

–        É um prazer que pode trazer arrependimentos…

–        Por quê?

–        Você descobrirá! – respondeu Iel com os olhos flamejantes.

–        O que está acontecendo? Seus olhos… Estou tão tonta!

E Sophia desmaiou, caindo nos braços de Iel, que a segurou delicadamente, levantando voo rumo ao castelo do Grande Ser.

Enquanto isso Sophia, em um tipo de transe, viu-se diante de seu pai e de uma mulher cujo rosto era familiar, mas não estava tão nítido na sua mente.

–        O que o meu pai está conversando com essa mulher? Quem é ela? Não me parece estranha.

Eles não podiam vê-la, ela os chamava, mas eles também não a ouviam.

–        Essa casa parece com a minha, mas há algo diferente, os móveis, os quadros, um berço?

Ela se aproximou e viu um bebê que dormia calmamente. Como era lindo!

–        De quem será esse bebê?

Quando Sophia foi pegá-lo, ouviu gritos, seu pai e a mulher brigavam muito na sala.

–        Você não deveria ter aceito! – gritou o seu pai.

–        Não fiz por mal, achei que isso nos ajudaria! – respondeu a mulher.

–        Você estragou tudo!

–        Desculpe… Abaixe essa arma!

E um tiro foi disparado. Sophia gritava, chorava muito. Ela correu até o corpo e descobriu quem era a mulher que acabara de morrer.

–        Não pode ser! Minha mãe morreu após o meu nascimento! Não… Isso é impossível! Meu

pai nunca faria isso. Esse lugar… Que ilusão é essa?

–        Infelizmente não há ilusão. – disse o Grande Ser.

–        Quem é você? Onde está o jardim? Onde está Iel?

–        Iel já cumpriu a sua tarefa. É hora de você cumprir o seu destino.

–        Que destino? Onde está a minha mãe? Que mentiras faltam aparecer?

–        Aqui não existem mentiras! Ao beber a água da fonte, você pôde descobrir o maior segredo da sua vida. Tudo estava previsto! Era uma etapa para a sua partida.

–        Para onde eu irei?

–        É chegada a hora da verdade!

Turbilhão de luzesO salão do castelo foi tomado por uma intensa luz azul que girava vagarosamente, formando um redemoinho bem acima de Sophia. Ouviu-se muitas vozes de homens, mulheres e crianças que falavam em uma língua estranha, mas muito harmoniosa e bela.

–        Que luz é essa? Quem está falando? O que vai acontecer comigo?

–        Adeus, minha criança! – disse o Grande Ser, com o rosto sublime, mas sério.

E sobre ela desceu um feixe de luz azul, muito suave, que ao tocá-la fez o seu corpo flutuar e subir vagarosamente em direção ao redemoinho. Sophia emanava uma luz branca pelos olhos, que se espalhou por todo o seu corpo.

Então, envolta por essa cápsula luminosa ela deu um forte suspiro, seguido por um clarão intenso.

Todas as luzes desapareceram. Assim como Sophia.

E restou apenas o silêncio… Quebrado pelo som do gotejar das lágrimas que Iel derramava sobre a fonte.